A saga dos ingressos do rock’n’rio

A saga dos ingressos do rock’n’rio

Existe um tema mais cotidiano do que falar de nosso tempo livre? Se pararmos para pensar, boa parte de nossas narrativas são a respeito disso. O que fizemos no fim de semana? Quais os planos para a noite? Onde você foi na pausa do café? Como foram suas férias? Esse último tema virou até sinônimo de redação de escola e era o terror de muitos que não gostavam de escrever.

Aproveitando o gancho do meu texto anterior em que narro as desventuras de minha vida errante, abordarei hoje a peculiar odisseia que batizei a saga do ingresso. Tirei uma bela lição dessa história e, também por conta disso, acho que vale compartilhar a experiência.

Minhas férias começaram com a descoberta de que eu tinha comprado o ingresso errado. O que não é, obviamente, nada auspicioso. Deixe-me explicar melhor. Quando eu vi a programação da edição 2013 do Rock In Rio, vários dias de shows me atraíram. Tinha Muse, tinha Metallica, tinha Justin Timberlake, tinha Iron Maiden. Reduzi meus interesses entre rever Muse ou ver Iron Maiden pela primeira vez. E, finalmente, comprei o ingresso para o show do Muse, no dia 14/09. A decisão foi muito pelo pacote que acompanhava a banda: Tributo a Raul com Zeca Baleiro e Zélia Duncan, Offspring, 30 Seconds to Mars e Florence + The Machine… ainda que também tivesse que suportar Capital Inicial, valia a pena.

Dada a descrição acima, imaginem o espanto desse colunista ao finalmente receber o voucher para retirada do ingresso do… Iron Maiden, no dia 22/09! Oh, Céus! Ato falho! Comprei um achando que tinha comprado outro. Decido uma coisa e registro outra no cérebro, vai entender. Um conflito interno entre vontades igualmente intensas. Uma ganhou, mas a outra aplicou um 171, confundindo minha memória. O trágico disso não é que eu seria obrigado a ver Iron… mas que eu tinha encaixado uma viagem ao Peru dos dias 15 a 30, saindo do Rio. Ou seja, já tinha passagem comprada para a cidade maravilhosa, hotel reservado para estar lá até o dia do show do Muse e, pior, passagem para Lima saindo de lá. Tentei resolver escrevendo para a organização do evento mas ganhei um “sinto muito” de presente. Não tinha jeito. Ao invés de ficar choramingando e me lamentando, coloquei na cabeça que iria no show mesmo assim… ainda que eu tivesse que morrer alto na mão dos cambistas.

Pois bem, ai vem a reviravolta dessa história triste. Na noite anterior ao show do Muse fui com uma amiga no Rio Scenarium, charmoso bar de samba no centro antigo da cidade. Qual minha surpresa ao me deparar, ao chegar, com uma promoção do bar juntamente com a cerveja Heineken, que sorteariam ingressos para o Rock in Rio! Bastava comprar um balde com 4 long necks para concorrer. Não bebo cerveja, minha amiga também não. Penso no outro amigo, também convidado para a noitada de samba, que acabou furando. “Com ele aqui, eu concorreria.”, pensei. Pois bem, o tempo passa, jantar, música, conversa e ela tem que embora. Sobram eu e as Mulheres de Chico, desfilando seu repertório e revivendo o mestre em grande estilo. 

Curto o som, bem ao meu feitio. Escorado em um canto deixando a música me embalar, observando os artistas em detalhe. Não só as 3 vocalistas, mas o pessoal do fundo, da percussão. A senhora da cuíca. A sanfona. Cada uma delas. O deleite tem fim quando vem o gerente do bar, sobe ao palco segurando uma urna e anunciando o aguardado sorteio. Para meu desespero, vejo a urna, transparente, com no máximo 30 ticketizinhos. “Caramba, que oportunidade perdida”, pensei. Mão dentro da urna, ticket para fora. “Número tal, tá na casa, balcão?”, pergunta o gerente. Já tinha ido. “Caramba”, penso de novo. Mão dentro, bilhete premiado fora. Eu, desolado, aproveitei que estava escorado e escorri para o chão. Mas eis que então o gerente anuncia “Continuem agora com as Mulheres de Chico e ao final do show mais dois bilhetes, ganhador e acompanhante, serão sorteados”. Do chão subi, recompus-me, corri ao balcão e pedi “Quero um ticket para concorrer, ainda que ele venha acompanhado de um balde com cervejas”. 

O fim dessa história é bastante claro, não é mesmo? O show acabou, o gerente voltou ao palco, a urna agora tinha dentro dela o mágico número 1183… que não foi sorteado. Pois é, eu não fui o sorteado. Gastei dinheiro com o tal balde, concorri, acompanhei o sorteio encarando, casa já quase vazia, o tal gerente, sedento pelos números que ele sadicamente anunciava. Mas não ganhei. Quem não tenha sorte, caça com astúcia. Olhei a média de idade da casa e pensei que possivelmente o tal ganhador poderia, siplesmente, não se interessar pelo Rock in Rio. Puxei a carteira e verifiquei quanto tinha em dinheiro. Não era muito, R$ 140,00. Certamente insuficiente para comprar o ingresso nas mãos dos cambistas. Corri para o balcão, me informei sobre onde era a retirada do ingresso, me perguntam “Você ganhou?” e eu respondo “Não, mas vou comprar o ingresso dele”. E a minha determinação se pagou. A pessoa chegou, pegou os dois ingressos na mão e imediatamente disse: “Caramba, e eu nem vou estar ai amanhã”, ao que eu respondo, imediatamente, “Problema nenhum. Toma R$ 140,00 pelos seus ingressos”. Ele, sorridente, estende-me os dois ingressos e diz “São seus”. Fiz um mal negócio, ele aceitaria R$ 100,00 ou até menos. Mas fiz um excelente negócio, comprei dois ingressos por muito menos do que valia um. Para fechar, o atendente do bar que nos entregou os ingressos exclama: “Que ótimo, duas pessoas diferentes felizes com o mesmo prêmio”.

E foi assim que endireitei as minhas férias que começaram tortas, além de ganhar uma história inusitada para contar. De maneira muito divertida resolvi o problema do ingresso para o Rock in Rio, assisti ao show que queria, negociei com os cambistas mas na posição de vendedor (e fiz outro mal negócio) e segui viagem ao Peru feliz da vida e certo de que otimismo, obstinação e pensamento positivo somam-se à canja de galinha como remédios para uma vida mais simples e feliz.

Publicado originalmente aqui.

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