Biomas

Bati essa foto em Toulouse. Era uma quinta-feira, 31/03. Era o último dia do mês. E foi o início de uma nova percepção que se apossou de mim. Um novo olhar para coisas já vistas, já cansadas, por vezes até mesmo desgastadas.

Nunca fui uma pessoa voltada para a natureza. No velho debate campo x cidade me considero um urbanista. E as árvores, fáceis de achar uma vez que paradas no chão, citando o mestre Antunes, nunca me despertaram nenhum interesse em especial. Cresci sobre elas, apanhei vários de seus frutos durante a infância e é inevitável pensar em uma aconchegante rede quando observo duas árvores com a distância adequada e troncos suficientemente fortes. Fora isso elas passavam, ou ficavam, por mim despercebidas.

Mas, em Toulouse, escapando para tomar um ar durante um dia de apresentações de trabalhos científicos em uma unidade do Centro Nacional de Pesquisa em Agronomia (INRA), uma visão prosaica, corriqueira, como a da foto acima, tocou-me de maneira especial. Detive-me por alguns minutos a observar a composição da cena, os pequenos arbustos, a trepadeira sobrevivendo sobre o tronco, o solo rico e provendo nutrientes não só para as plantas mas para vários pequenos insetos e outros animais, passáros cantando e pousando sobre essa e outras árvores ao redor, formigas que habitam a pequena castanha que tenho à mão. E a beleza de cada uma dessas coisas e da interação entre elas me mudaram.

Talvez o que tenha me afetado de maneira mais profunda tenha sido enxergar a interdependência e o respeito entre esses seres. E a harmonia que as regras da vida soube impor.

Dois dias depois estava jantando na casa de um amigo, celebrando o aniversário de sua esposa. Primavera chegou, momento de exibir, satisfeito, as diversas variedades de plantas em seus vasinhos, na sacada. Pequenas plantas que após o mortal inverno ressuscitam como que dotadas de uma alma de fênix. Cada pequena nova flor, folha ou ainda apenas uma pontinha mais verde do que o restante do caule era mostrado por meu amigo com um orgulho de pai.

E é gozado pensarmos em como nos relacionamos diferentemente com pessoas (ou animais) e com as plantas. Para elas podemos interagir nos dando. Damos atenção, damos carinho, adubamos, esperamos sempre pelo melhor, pelo crescimento, para que sobreviva, cresça feliz e saudável. E depois observamos. E a resposta que temos não é imediata. Não se pode ser ansioso para se apreciar uma relação assim, temos que dar e depois observar. E, satisfeitos como pais, nos orgulhar quando nossos pequenos brotos desabrocham, saltam para a vida, reverdejam. E assim também deveria ser com nossos amigos, com nossos amores. Darmos, esperarmos e observarmos. Pois também com nossos relacionamentos vivemos em um bioma em que a interdependência e o respeito deveriam ser a receita para a harmonia.

Passei a respeitar muito mais quem se dedica a criar plantas. Seja no inverno ou em qualquer uma das estações.

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