Contra o Tempo

Contra o Tempo

O capitão Colter Stevens (Jake Gyllenhaal) recebe uma importante missão: identificar quem é o terrorista que plantou uma bomba em um trem. O inusitado da missão, porém, é que ele não deve tentar nem impedi-lo e nem salvar as pessoas da explosão… pois a explosão já aconteceu. A ideia é apenas identificar o terrorista para prevenir um outro atentado já anunciado. O subestimado Contra o Tempo (Source Code, 2011, de Duncan Jones) narra uma espécie de Feitiço do Tempo, excelente comédia romântica de 92 com Bill Murray, em ritmo detetivesco e flerta seriamente com a possibilidade de criação de realidades alternativas, entregando uma boa e divertida trama de ficção, muito bem encenada, editada e interpretada. E se você, leitor, ainda não viu o filme é melhor conferir – vale mesmo a pena – antes de terminar de ler o texto de hoje.

O roteiro do filme é engenhoso ao nos deixar tão confusos quanto seu personagem principal e explorar este artifício para, aos poucos, apresentar os fascinantes elementos da trama. A princípio, somos introduzidos ao conceito de incorporação. Quando ocorre a primeira explosão do trem, somos pegos de surpresa para em seguida sermos apresentados a uma espécie de volta ou deformação no tempo, o tal “código-fonte” bastante vago do original. Só aos poucos chegamos à explicação mais elaborada, ainda que propositadamente vaga, sobre realidades alternativas e física quântica.

A observação que intriga e que o roteiro é bastante feliz ao tratar é que um mesmo código-fonte pode dar origem a diferentes resultados, dependendo dos valores das variáveis durante sua execução. Assim, se alguém desvia do café a ser derramado em seus pés ou leva um ou outro diálogo de forma diferente, terá resultados imediatos diferentes. É o tal efeito borboleta, aqui aplicado em rápidos ciclos de 8 minutos que permitem ao personagem navegar por situações engessadas, em um ambiente confinado, e daí extrair seus objetivos, isto é, identificar o terrorista e o local da bomba. Mas, naturalmente, a natureza da própria operação e mais informações sobre seu próprio papel nisso tudo passam a preocupar o capitão Stevens muito mais do que sua missão original.

O conceito de vermos um personagem revivendo situações não é, como eu disse, original, mas talvez esse seja um dos filmes que melhor explora o conceito de realidades alternativas e paralelas. O filme tem vários pontos altos. Gyllenhaal interpreta muito bem o seu difícil personagem, alternando confusão, auto-confiança, dor, perseverança em diversas passagens em um papel bastante rico. Monaghan está à vontade com sua repetição à exaustão das mesmas situações, com pequenas variações convincentes e Farmiga também atua com delicadeza e firmeza como a Capitã Goodwin, responsável pela missão de Stevens. Com isso, o enredo prende a atenção e a maneira com a qual a direção de arte mostra o complexo militar e a forma misteriosa e impessoal de como a natureza da operação é tratada e a real situação do capitão ganham pontos para a produção. Mas o que dá mesmo um toque adicional ao filme são os questionamentos filosóficos que ele proporciona sobre a relação espaço-tempo e a possibilidade de existirem universos paralelos. Acredito, inclusive, que uma coluna de Nerdices Filosóficas sobre esse filme cairia muito bem.

Não consigo nem conceber – e o filme é inteligente ao não querer fornecer detalhes – a tecnologia maluca usando mecânica quântica (!) que seria capaz de transplantar a consciência de uma pessoa para outra, já morta, de maneira que ela possa reviver os seus últimos 8 minutos de vida e ainda interagir com outras pessoas e ambientes, sem qualquer limite aparente, como fica claro ao vermos Stevens perseguir um determinado personagem até o banheiro da estação que antecede Chicago, local em que o professor Sean, avatar de Stevens, provavelmente nunca fui em toda sua vida. Na verdade, só a tecnologia capaz de escrever os pensamentos de alguém já me parece revolucionária o suficiente… Mas isso são bobagens, o filme diverte muito e merece ser visto!

Publicado originalmente aqui.

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