Gato Preto Gato Branco & Um Sonho Possível & Os Normais 2 & Deixa ela Entrar

Mais uma vez me impressiono com a diversidade dos quatro filmes vistos nesta semana. Um filme iugoslavo (?) quase inclassificável e ganhador de prêmios em festivais, um drama edificante bem ao gosto norte-americano com a reinvenção de Sandra Bullock a tiracolo, uma comédia brasileira meio desbocada e com alguns momentos divertidos e um drama romântico de terror sueco (!?) dando uma nova abordagem para o clássico mito dos vampiros, em um universo colegial infantil. Quatro filmes de quatro estilos e de quatro nacionalidades diferentes unidos aqui simplesmente por que sim e comentados abaixo, com muitos spoilers.

Gato Preto Gato Branco (1998). Dir. Emir Kusturica (4/5)

Confesso que não foi fácil assistir Gato Preto Gato Branco, já que o filme é falado em algum dialeto montenegrino e apesar das legendas em francês meu “domínio” do idioma não permitiu que eu visse o filme sem algumas interrupções para consultas ao dicionário. Mesmo assim, acabei envolvido pela bem humorada trama, pelas atuações cativantes do elenco (em especial, a atuação explosiva e cheia de energia Srdjan Todorovic e a beleza e carisma de Branka Katic). Em termos artísticos (música, literatura e cinema, especificamente) o que mais me encanta é o experimentalismo, quando o artista se deixa levar por suas sensações e leva ao limite o conceito vigente de sua arte. Muitas vezes, o experimentalismo leva a ambientações surreais e a situações bizarras. E como a imagem ao lado (uma banda tocando amarrada em uma árvore) não me deixa mentir, Kusturica é um artista que experimenta muito e seus filmes se passam sempre em um universo muito particular (conheço pouco de sua filmografia, mas o ganhador da Palma de Ouro em Cannes, Underground, também retrata esse universo específico do diretor). O filme narra a estória de uma família de ciganos, os Destanov, em que avô (Zarije), pai (Matko) e neto (Zare) se vêem envolvidos com um gângster playboy Dadan (o fantástico Todorovic) para aplicar um golpe ao mesmo tempo em que se envolvem com uma espécíe de “poderoso chefão” local para conseguir fundos que viabilizem a ação. Como pano de fundo, o rapaz Zare se apaixona pela divertida Ida, mas já está prometido para a irmã de Dadan.

O filme então se desenrola entrelaçando a vida desses personagens em sequencias bastante divertidas e, para meu deleite, surreais. O fato de as tais 7 (ou 9, dependendo do local) vidas dos gatos poderem ser transferidas para humanos é apenas um dos elementos fantásticos que o filme traz, proporcionando diversas imagens improváveis e que dificilmente serão esquecidas. Em especial, me encantaram a sequencia do sorvete no rio e do pega-pega nos girassóis e a escapada da noiva/esposa já na parte final do filme, além da apresentação do personagem Dadan em sua limosine ao ritmo de cocaína e do coro “terrier, terrier” e da composição tresloucada do personagem ao longo de toda a película, por exemplo quando ele grita o bordão “Maradona” em diversas ocasiões em que se empolga o quando dança energicamente sempre que tem chances – e às vezes mesmo sem tê-las. Recomendo.

Um Sonho Possível (2009). Dir. John Lee Hancock (4/5)

Sandra Bullock ganhou o oscar por sua interpretação de Leigh Anne Tuohy em filme inspirado em fatos reais que narra a relação de Leigh Anne e sua rica família com esposo e dois filhos quando decidem adotar um rapaz negro, já próximo dos 18 anos e com dificuldades de aprendizado. Chega a ser difícil acreditar que a estória em si tenha acontecido. Mais difícil ainda é imaginar que não só uma pessoa mas que toda uma família possa ter sido tão altruísta e com um amor genuíno e uma enorme paciência por um recém-desconhecido. Bela estória sobre o lado bom do ser humano, o filme não apresenta grandes reviravoltas e nem cenas prontas e gratuítas apenas para levar o público às lágrimas. Narra sua estória – por si só já edificante e com enorme potencial para emocionar – de maneira simples e retilínea, do encontro e das dificuldades iniciais à cumplicidade e comprensão que todos vão ganhando à medida em que deixam seus preconceitos e seus medos e passam a acreditar na bondade do próximo. A pequena reviravolta final, na verdade, serve apenas para ilustrar que também as boas ações não podem ser confundidas com a condução arbitrária da vida alheia, sejam filhos naturais ou adotivos ou esposos ou o que seja. Cada um é responsável por sua própria vida. Bonito. Recomendo.

Os Normais 2 – A Noite mais Maluca de Todas (2009) – Dir. João Alvarenga Jr. (3/5)

A sequencia de Os Normais, primeira adaptação que levou a série cômica da Globo para a telona, é superior ao original. Filme mais curto – apenas uma hora e quinze – lembra bastante o seriado e parece um episódio especial. Após onze anos de noivado Ruy e Vani sentem o marasmo do relacionamento. Em mais uma noitada sem grandes aventuras, Vani decide ceder e filnamente realizar o sonho de Ruy de realizar um ménage-a-trois. E então o filme vira uma série de pequenas cenas, cada uma contando com uma participação especial, com o casal tentando encontrar a parceira ideal. E dá-lhe Danielle Suzuki, Cláudia Raia, Danielle Winits e por aí vai. Várias sequencias são divertidas e várias outras são aborrecidas. Mas como o filme é curto, tudo termina bem. Divertido e só para quem gostava da série.

Deixa Ela Entrar (2008) – Dir. Tomas Alfredson (4/5)

Esse belo filme sueco resgata as origens do mito do vampiro, tão desgastados nestes tempos de Crepúsculo, para contar uma bela estória sobre amadurecimento, instinto de sobrevivência, repressão de nossos instintos e sobrevivência. Oskar é um menino frágil e que vive sendo atormentado pelos valentões da escola. Certo dia, uma garota muda-se para o apartamento ao lado do seu e inicia-se uma amizade. Aos poucos, o envolvimento dos dois vai ganhando em cumplicidade ao mesmo tempo em que vamos descobrindo a natureza sombria da menina Eli. Ela alimenta-se de sangue e seu “pai” (na verdade, provavelmente um amante e que um dia já foi um pequeno garoto também seduzido por ela) para conseguir vítimas. O filme não se preocupa em estabelecer um panorama histórico, que justifique o porquê da natureza de Eli, mas é muito eficiente ao estipular as regras clássicas a ela aplicadas: luz do sol é fatal, ela pode viver eternamente mas sempre com o corpo físico do momento da transformação (Eu tenho 12 anos, só que eu tenho 12 anos há muito tempo, responde ela ao ser questionada sobre sua idade), ela precisa ser convidada para entrar nos ambientes (como o nome do filme ressalta) e, obviamente, sua energia vital é obtida através de sangue. E é encantador que o filme diga tanto sobre o seu universo apenas com sugestões e imagens e quase nada com diálogos expositivos. O pequeno Oskar vai, aos poucos, se encantando pela garota e ganhando a confiança necessária para reagir aos abusos sofridos na escola, sentindo-se protegido e à vontade para colocar para fora seus instintos violentos. A interpretação dos atores mirins é fantástica e dá peso dramático ao filme. Recomendo!

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